Ama eu, porra

Beija e não pensa, porra
em quem vem do outro lado da rua
na nossa direção

se é pau mandado da supervisão
se estaciona a Mercedes em vaga exclusiva na igreja
ou se é mais um homem caído na calçada

Amassa minha roupa, porra
chuta meus sapatos
mancha minha camisa
engole minha alma
e me ama
na rua, na chuva, no meio do lixo

só por alguns segundos
esquece dos projetos de excelência
esquece teus projetos para o futuro
esquece do futuro
que daqui alguns minutos pode ser um cogumelo nuclear
nas esquinas nojentas do Brás

Beija com vontade, porra
como se minha saliva fosse a água que você precisa
para lubrificar teu corpo, teus olhos, tua pele seca, tuas engrenagens tão lógicas
e teus sonhos que, de tão plausíveis, nem podem receber esse nome

esquece a promoção, porra
esquece a luz do dia
esquece o horário comercial
esquece
porque nenhum minuto pode ser compensado a sós depois

eu exijo a multidão, os gritos, os comentários de reprovação dos moribundos
com suas canelas apertadas por meias finas
enquanto eu penetro com força e com fúria nos buracos do mundo
e jogo minha paixão lá dentro
cuspida
jorrada
fincada com raiva
nessa lama densa e sonolenta onde nós nos metemos

seja livre, porra, ama sem culpa, sem necessidade de desculpa
e quando entrar no elevador lotado da firma
vai alinhando cabelos, saia e calcinha
já preparando teu corpo e pensando no próximo beijo no meio da rua

então ama, porra, sem responsabilidade
assumindo teu amor
e se der vontade de chorar, chora
mas primeiro ama eu, porra

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