29 macas

Já são duas da manhã
e você ainda não terminou suas orações
Você diz que elas refrescam sua alma
mas o que é um ventilador no inferno?
Você me diz pra sentir o milagre da vida
mas como eu posso imaginar algo que eu não conheço
Você diz que é preciso acreditar antes
e eu lhe pergunto em quem?
Nossos corações nunca foram os mesmos
desde que um de nós resolveu olhar nos olhos da fé
Mas fique tranquila amor, eu sei que você se sente feliz
neste mundo louco em que vivemos sem saber as regras
Onde estupradores e assassinos são erguidos nas ruas
enquanto mais uma mãe aguarda no hospital o horário de visitas ao lado de outras 29 macas

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Porcamente humano

Você já acordou incapaz de olhar em seus olhos?
Farto de todo esse aspecto humano?
Esse esqueleto que teima em ficar de pé e caminhar
Essas secreções e esses sentimentos tão porcamente sensíveis
Ando tão farto de mim
Cansado de ouvir o eco de minhas perguntas como resposta
De buscar sentidos com métodos absurdos
Os demônios em meu armário desistiram
e no meu mundo, onde o sol se põe atrás de uma linda explosão nuclear
Só o silêncio é de verdade

Ladeiras

Paula me levou para ver os animais no zoológico
comprou um saco de pipocas doces e um sorvete de duas cores
riu dos macacos em fúria
assobiou para o leão dopado
eu apenas consegui sentir pena de tudo isso

Andréia me convidou para ir ao cinema
comprou óculos que mudavam o foco
reservou poltronas que se mexiam
e quando olhou nos meus olhos para saber o que senti
eu tive de admitir que não entendi nada

Bianca disse que tinha uma surpresa
levou-me a uma feira de flores
apontou para a diversidade de cores
pegou algumas rosas comestíveis e salpicou pétalas em minha língua
apertou bem minha mãos e arrancou um ‘legal’ de meus lábios

Nancy me levou a um encontro em seu grupo de submissos
retirou da sacola prata um chicote com fitas na ponta
achou que talvez eu conseguisse sentir medo
ou talvez não fosse imune à dor
mas toda aquela gente imobilizada me transmitia o mesmo desespero e melancolia que vejo em qualquer estação de metrô

Renata me deu conselhos profundos, seu colo e sua casa
um vela numa mão, frases inspiradoras na outra
durante algum tempo funcionou
mas ninguém deixa de ser o que realmente nasceu para ser
e eis-me aqui de volta à velha acidez temperada com meu sorriso econômico e minhas palavras arquivadas

Perdão por todas as tentativas frutadas
Perdão por toda a esperança consumida

Meia-noite

É meia-noite em algum lugar no mundo, onde não há essas paredes de pregos e esse anzol em minha alma. São flores em alguma estação, onde não há esse sol escaldante que mata tudo o que tenta apenas sobreviver ao calor. São apenas afeto e compreensão em algum lugar onde não há obrigação de vestir essas roupas que visto, beber essa água que bebo, banhar-se nesse chuveiro cronometrado.

É meia-noite em alguma cidade esquecida, onde a poeira não incomoda ninguém, a música desliza em cândidas e serenas águas e até os olhos piscam devagar. São apenas sorrisos, ainda que os dentes não reluzam, em algum ponto dessa terra onde estão meus pés, minhas mãos e minha mente.

Às vezes eu me sinto como se estivesse correndo atrás de mim mesmo. Às vezes eu vejo meus demônios quando seus olhos miram os meus. Às vezes eu sinto meu veneno, quando seus lábios se aproximam dos meus.

Mas não importa, é meia-noite em algum ponto da terra, onde há estrelas cadentes, uma brisa quente e aquele sentimento suave de quando está tudo bem. E é para lá que eu vou agora ou quando disser adeus.

Quebra-cabeça

Entres as cinzas da estrada e as cinzas voando aqui nesta sala eu me pergunto por quê? O mundo me enquadra no canto da parede e eu me sinto culpado por estar feliz, ainda que desconectado de todas as notícias dos jornais. Apalpo minha pedra, macero minha erva e jogo sobre mim a água benta. Acendo minha vela e medito em uma profunda conexão de paz. Acaricio os cachorros e sorrio para as crianças. Vez ou outra, converso com um velho e durmo na minha cama que, se não cresceu, traz uma satisfação que nunca senti em minha vida. De tempos em tempos, meu compadre, eu me também me sinto culpado por não ser uma usina de generosidade, por não conseguir responder qual a minha religião, meu partido, meu parente preferido ou qual é a minha luta. Porque eu não quero lutar, não desse jeito. Sim, eu me sinto culpado, irmão, porque minha lança para baixo é menos um coração que bate, mas essa não é minha batalha e eu me pergunto por quê? No fundo do peito, não ressoa covardia, bomba honestidade e talvez esse seja meu erro mais humano e mais profundo. Eu ainda busco meu lugar no mundo e, mesmo sem saber onde estou indo, tenho a sensação de que estou no meu caminho. Aos poucos, livrando-me da bagagem que alguém me deu e eu mesmo aceitei, porque sem ela eu não saberia que não quero essa bagagem em minha vida.

A escuridão de Cecília

Cecília caminhou em minha direção, mas…esqueça, ignore este nome.

Eu não a conheço, apenas inventei um para aquela mulher de pernas tão transparentes como jamais eu serei. Toda vestida de negro, ela parecia uma provocação. Se por um lado o contraste com as sombras apenas realçava seu ar divino, por outro, mostrava que não importa o quanto mergulhasse nas trevas, jamais deixaria de ser um anjo.

Cecília…

Sem você eu sigo, um inventor de nomes e histórias irrelevantes em uma padaria de um bairro cujo nome não importa em mais uma contribuição para essa sociedade muito abaixo do razoável.