Perfume da novidade

Eu estou farto dessa vida. Dessa provável e confortável vida. Desse jogo com pequenos desafios facilmente solúveis que chamamos vida. Desses pecados que eu pago sem mérito. E os que não pago, eu consigo parcelar sem sacrifício.

Sei que muitos de vocês almejam isso, sei que muitos de vocês só queriam que isso fosse sua vida. Mas eu, eu me cobro muito por isso.

Me cobro pelo jocosa e cheia de preguiça vida, esse conta gostas que me conforta com o nada de brisa. Pequenas gozadas esquecíveis que deixam tudo menos insuportável como num milimétrico tabuleiro onde a fórmula desespero, esperança e desespero se repete para me dar um pouco mais de esperança.

O odor taciturno procura uma napa que me encha de perfume da novidade. Mas não é essa busca que me corrói. O que corrói e saber que não me traio, que sou isso, uma previsão do futuro de qualquer um. O óbvio caminhando pela areia antes de chegar ao semáforo cheio de moleques sem importância e balas sem gosto. Em busca do quê, afinal? Da pretensiosa missão que não existe? A missão, para desespero de todos, é somente passar nessa retilínea vida, talvez.

Isso passa. Sempre passa, como eu sempre digo enquanto estou sendo vigiado. E essas câmeras, esses circuitos que vasculham meus circuitos, se um dia descobrirem isso, vão dizer que é doença. Porque não podem admitir que somos todos mais ou menos isso.

Honesto com minha vida, isso eu ainda não aprendi a ser.

Eu não sei amar (para Tim Maia)

Com o coração partido
sou uma companhia insuportável

mas com o coração apaixonado
sou um opressor terrível

eu não sei amar
eu não sei perder quem eu amo
eu não sei deixar o rio seguir o curso
de seu destino
eu não sei viver sem o beijo
sem o toque
sem o calor e sem o fogo

você tem um cigarro?
eu não fumo, mas nunca é tarde para começar
a aprender com a fumaça como a vida é um sopro
e como a felicidade é pó voando num dia de sol

um leve toque na cortina
e não há mais rastro nenhum de coisa alguma

Qualquer final

Eu acordei esta manhã com minhas costas doendo como nunca. Mas o que parecia castigo, era só amor. Eu acordei e já não havia mais a camisa com sacos de areias nos meus bolsos, já não havia mais os sapatos encharcados em meus pés. Não havia mais roupa alguma. Só havia você. O que eu sentia era uma forma de dizer acorde, você não tem mais tempo para cochilar. Era hora de acordar para sonhar com qualquer final.

Bilhete póstumo

Linda rosa no meio do vomito
Lindo amor egoísta
Lindos amigos imaginários
Linda gota de sangue meu derramada em seu nome
Linda gota de sangue insignificante
Linda fé de perguntas sem respostas
Lindo ponto solto no meio da multidão
Lindo baralho onde todas as cartas são dois
Lindos dias de sol, noite e nenhuma esperança

Felizes por estarmos vivos ainda e ver que
o fogo queima
a água molha
e o resto do mundo tem tantas novidades quanto isso

Eu não consigo sair de mim
E você não consegue entrar
e encontrar o papel com seu nome
num ritual que você nunca entendeu e nunca será capaz de entender

Férias

Em férias
um hiato no desespero
com prazo de validade

eu, mais um que busca respostas dessa vida em formato de sorriso de canto de boca
eu, que vejo a enchente carregar em pedaços
pedaços das nossas vidas

traz sofás, armários, carros, corpos, vereadores, ONGs, apresentadores de TV
numa força de água que não preenche o furo n´alma
que todo mundo carrega e mais cedo ou mais tarde fica impossível de cobrir
um furo que vai abrir
e jorrar

alguns, mais de uma vez
muitos, por mais de um dia
poucos, limpos de toda a sujeira
exorcisados
quase canonizados
serão capazes de confirmar que amar foi a única revolução verdadeira a existir
e resistir