Eu estava livre

Era noite de sábado e eu estava livre. Completamente livre, atormentado e torturado por seu nome, suas taças de vinhos, suas garfadas e olhares que vinham de outro lugar e pairavam naquela masoquista casa livre. Cada passo seu sabia onde iria dar e cada vez que você levava o indicador direito para passear sobre as pontas dos fios de sua franja no lado esquerdo do rosto  sabia o que queria dizer. Mas você era só um flashback, uma visita indigesta, terrível, tenebrosa, ser maligno que assombrava toda a casa de encosta que eu havia construído. O amor, a piedade, a solidariedade e todos os princípios de fé lapidados nas mais inacreditáveis religiões que conheci durante todos os últimos meses de terapia involuntária sucumbiram diante de um único palito de fósforo que você riscou. Tudo voltava a ser sombra, amargura, desejo de vingança e revolta. Era noite de sábado e eu estava livre, a pior liberdade que um homem pode ter, a liberdade do deserto, da flor arrancada da terra, da comida retirada da geladeira por dias e do corpo que olha para si mesmo morrer de sede sem ter força nem para erguer as mãos em busca de esmola. Meus ossos já eram pele e a pele já era osso numa comédia trivial que engoliu a muitos outros homens. Livres, como eu estava e como jamais queria e pedi para ser. Livre como alguém que anda em círculos ao redor da mesa de centro sem ninguém para impedir. Eu era um homem deprimentemente livre.

Fronteiras

Eu não acredito em muros
Eu não acredito em fronteiras
Eu não acredito em dor eterna
Eu não acredito em ‘aceite, é apenas um trabalho’
Eu não acredito na roda inesgotável do tempo insano
Eu não acredito que a fome é seleção natural
Eu não acredito em perder a capacidade de chorar
Eu não acredito em submissão
Eu não acredito em rolos compressores
E todos os dias eu tento lutar para que minhas crenças façam sentido

O mito de Platão

Quando Platão me tirou da caverna, prometeu o paraíso. Um novo mundo com comida farta, animais coloridos, água abundante, seres humanos extraordinários, celular de três chips e até uma tal de linha 4 do Metrô para eu andar.
O que eu conheci foi o Cambuci. Um apartamento de um quarto num prédio de paredes descascadas que ainda divido com uma puta, um traficante e uma velha que mata de fome os quatro moleques. O caçula, vagabundo que outro dia queimou minha TV 24”.
Ganhei numa rifa. A única coisa que já ganhei na vida.
Até meu nome, Tigre Lupertina, virou…
– Samanta, minha flor, como você tá? – vem se chegando, aquele filho da puta.
Ao menos me arrumou um emprego de balconista aqui na flor do Cambuça. Em tempos de crise, melhor que dar o cu por 10 conto e três pedras de crack.
– O que me conta? – chega, todo cheio de intimidade, se roçando em mim.
– Sai, porra.
– Ihhhhh, dormiu de calça, caraio?
– Vai se foder.
– O que tá pegando?
– Porra, não aguento mais político. Começa te chamando pelo diminutivo, finge ser seu melhor amigo e quer chupar até tua alma. Mas no fundo, você não vale nada. Cada osso da gente parece que vai usar para construir uma ponte que vai até o lugar onde quer chegar. Se você cair no canto da sereia, parece um queridão, amigão íntimo mesmo, mas, no fundo, esfarela igual biscoito de polvilho.
– É, eleição é foda, né, Shirley?
– Quem tá falando de eleição, porra? Quem falou de urna?
Tô falando de você e dessa tal de humanidade.
Os da TV, pelo menos, são profissionais de jogo sujo. Vocês são só uns bosta na vida.

Perfume da novidade

Eu estou farto dessa vida. Dessa provável e confortável vida. Desse jogo com pequenos desafios facilmente solúveis que chamamos vida. Desses pecados que eu pago sem mérito. E os que não pago, eu consigo parcelar sem sacrifício.

Sei que muitos de vocês almejam isso, sei que muitos de vocês só queriam que isso fosse sua vida. Mas eu, eu me cobro muito por isso.

Me cobro pelo jocosa e cheia de preguiça vida, esse conta gostas que me conforta com o nada de brisa. Pequenas gozadas esquecíveis que deixam tudo menos insuportável como num milimétrico tabuleiro onde a fórmula desespero, esperança e desespero se repete para me dar um pouco mais de esperança.

O odor taciturno procura uma napa que me encha de perfume da novidade. Mas não é essa busca que me corrói. O que corrói e saber que não me traio, que sou isso, uma previsão do futuro de qualquer um. O óbvio caminhando pela areia antes de chegar ao semáforo cheio de moleques sem importância e balas sem gosto. Em busca do quê, afinal? Da pretensiosa missão que não existe? A missão, para desespero de todos, é somente passar nessa retilínea vida, talvez.

Isso passa. Sempre passa, como eu sempre digo enquanto estou sendo vigiado. E essas câmeras, esses circuitos que vasculham meus circuitos, se um dia descobrirem isso, vão dizer que é doença. Porque não podem admitir que somos todos mais ou menos isso.

Honesto com minha vida, isso eu ainda não aprendi a ser.

Eu não sei amar (para Tim Maia)

Com o coração partido
sou uma companhia insuportável

mas com o coração apaixonado
sou um opressor terrível

eu não sei amar
eu não sei perder quem eu amo
eu não sei deixar o rio seguir o curso
de seu destino
eu não sei viver sem o beijo
sem o toque
sem o calor e sem o fogo

você tem um cigarro?
eu não fumo, mas nunca é tarde para começar
a aprender com a fumaça como a vida é um sopro
e como a felicidade é pó voando num dia de sol

um leve toque na cortina
e não há mais rastro nenhum de coisa alguma

Qualquer final

Eu acordei esta manhã com minhas costas doendo como nunca. Mas o que parecia castigo, era só amor. Eu acordei e já não havia mais a camisa com sacos de areias nos meus bolsos, já não havia mais os sapatos encharcados em meus pés. Não havia mais roupa alguma. Só havia você. O que eu sentia era uma forma de dizer acorde, você não tem mais tempo para cochilar. Era hora de acordar para sonhar com qualquer final.