Quebra-cabeça

Entres as cinzas da estrada e as cinzas voando aqui nesta sala eu me pergunto por quê? O mundo me enquadra no conto da parede e eu me sinto culpado por estar feliz, ainda que desconectado de todas as notícias dos jornais. Apalpo minha pedra, macero minha erva e jogo sobre mim a água que para mim é benta. Acendo minha vela e medito em uma profunda conexão de paz. Acaricia os cachorros e sorrio para as crianças. Vez ou outra, converso com um velho e durmo na minha cama que, se não cresceu, traz uma satisfação que nunca senti em minha vida. De tempos em tempos, meu compadre, eu me também me sinto culpado por não ser uma usina de generosidade, por não conseguir responder qual a minha religião, meu partido, meu parente preferido ou qual é a minha luta. Porque eu não quero lutar, não desse jeito. Sim, eu me sinto culpado, irmão, porque minha lança para baixo é menos um coração que bate, mas essa não é minha batalha e eu me pergunto por quê? No fundo do peito, não ressoa covardia, bomba honestidade e talvez esse seja meu erro mais humano e mais profundo. Eu ainda busco meu lugar no mundo e, mesmo sem saber onde estou indo, tenho a sensação de que estou no meu caminho. Aos poucos, livrando-me da bagagem que alguém me deu e eu mesmo aceitei, porque sem ela eu não saberia que não quero essa bagagem em minha vida.

A escuridão de Cecília

Cecília caminhou em minha direção, mas…esqueça, ignore este nome.

Eu não a conheço, apenas inventei um para aquela mulher de pernas tão transparentes como jamais eu serei. Toda vestida de negro, ela parecia uma provocação. Se por um lado o contraste com as sombras apenas realçava seu ar divino, por outro, mostrava que não importa o quanto mergulhasse nas trevas, jamais deixaria de ser um anjo.

Cecília…

Sem você eu sigo, um inventor de nomes e histórias irrelevantes em uma padaria de um bairro cujo nome não importa em mais uma contribuição para essa sociedade muito abaixo do razoável.

Ama eu, porra

Beija e não pensa, porra
em quem vem do outro lado da rua
na nossa direção

se é pau mandado da supervisão
se estaciona a Mercedes em vaga exclusiva na igreja
ou se é mais um homem caído na calçada

Amassa minha roupa, porra
chuta meus sapatos
mancha minha camisa
engole minha alma
e me ama
na rua, na chuva, no meio do lixo

só por alguns segundos
esquece dos projetos de excelência
esquece teus projetos para o futuro
esquece do futuro
que daqui alguns minutos pode ser um cogumelo nuclear
nas esquinas nojentas do Brás

Beija com vontade, porra
como se minha saliva fosse a água que você precisa
para lubrificar teu corpo, teus olhos, tua pele seca, tuas engrenagens tão lógicas
e teus sonhos que, de tão plausíveis, nem podem receber esse nome

esquece a promoção, porra
esquece a luz do dia
esquece o horário comercial
esquece
porque nenhum minuto pode ser compensado a sós depois

eu exijo a multidão, os gritos, os comentários de reprovação dos moribundos
com suas canelas apertadas por meias finas
enquanto eu penetro com força e com fúria nos buracos do mundo
e jogo minha paixão lá dentro
cuspida
jorrada
fincada com raiva
nessa lama densa e sonolenta onde nós nos metemos

seja livre, porra, ama sem culpa, sem necessidade de desculpa
e quando entrar no elevador lotado da firma
vai alinhando cabelos, saia e calcinha
já preparando teu corpo e pensando no próximo beijo no meio da rua

então ama, porra, sem responsabilidade
assumindo teu amor
e se der vontade de chorar, chora
mas primeiro ama eu, porra

Fronteiras

Eu não acredito em muros
Eu não acredito em fronteiras
Eu não acredito em dor eterna
Eu não acredito em ‘aceite, é apenas um trabalho’
Eu não acredito na roda inesgotável do tempo insano
Eu não acredito que a fome é seleção natural
Eu não acredito em perder a capacidade de chorar
Eu não acredito em submissão
Eu não acredito em rolos compressores
E todos os dias eu tento lutar para que minhas crenças façam sentido

O mito de Platão

Quando Platão me tirou da caverna, prometeu o paraíso. Um novo mundo com comida farta, animais coloridos, água abundante, seres humanos extraordinários, celular de três chips e até uma tal de linha 4 do Metrô para eu andar.
O que eu conheci foi o Cambuci. Um apartamento de um quarto num prédio de paredes descascadas que ainda divido com uma puta, um traficante e uma velha que mata de fome os quatro moleques. O caçula, vagabundo que outro dia queimou minha TV 24”.
Ganhei numa rifa. A única coisa que já ganhei na vida.
Até meu nome, Tigre Lupertina, virou…
– Samanta, minha flor, como você tá? – vem se chegando, aquele filho da puta.
Ao menos me arrumou um emprego de balconista aqui na flor do Cambuça. Em tempos de crise, melhor que dar o cu por 10 conto e três pedras de crack.
– O que me conta? – chega, todo cheio de intimidade, se roçando em mim.
– Sai, porra.
– Ihhhhh, dormiu de calça, caraio?
– Vai se foder.
– O que tá pegando?
– Porra, não aguento mais político. Começa te chamando pelo diminutivo, finge ser seu melhor amigo e quer chupar até tua alma. Mas no fundo, você não vale nada. Cada osso da gente parece que vai usar para construir uma ponte que vai até o lugar onde quer chegar. Se você cair no canto da sereia, parece um queridão, amigão íntimo mesmo, mas, no fundo, esfarela igual biscoito de polvilho.
– É, eleição é foda, né, Samanta?
– Quem tá falando de eleição, porra? Quem falou de urna?
Tô falando de você e dessa tal de humanidade.
Os da TV, pelo menos, são profissionais de jogo sujo. Vocês são só uns bosta na vida.

Perfume da novidade

Eu estou farto dessa vida. Dessa provável e confortável vida. Desse jogo com pequenos desafios facilmente solúveis que chamamos vida. Desses pecados que eu pago sem mérito. E os que não pago, eu consigo parcelar sem sacrifício.

Sei que muitos de vocês almejam isso, sei que muitos de vocês só queriam que isso fosse sua vida. Mas eu, eu me cobro muito por isso.

Me cobro pelo jocosa e cheia de preguiça vida, esse conta gostas que me conforta com o nada de brisa. Pequenas gozadas esquecíveis que deixam tudo menos insuportável como num milimétrico tabuleiro onde a fórmula desespero, esperança e desespero se repete para me dar um pouco mais de esperança.

O odor taciturno procura uma napa que me encha de perfume da novidade. Mas não é essa busca que me corrói. O que corrói e saber que não me traio, que sou isso, uma previsão do futuro de qualquer um. O óbvio caminhando pela areia antes de chegar ao semáforo cheio de moleques sem importância e balas sem gosto. Em busca do quê, afinal? Da pretensiosa missão que não existe? A missão, para desespero de todos, é somente passar nessa retilínea vida, talvez.

Isso passa. Sempre passa, como eu sempre digo enquanto estou sendo vigiado. E essas câmeras, esses circuitos que vasculham meus circuitos, se um dia descobrirem isso, vão dizer que é doença. Porque não podem admitir que somos todos mais ou menos isso.

Honesto com minha vida, isso eu ainda não aprendi a ser.